domingo, 5 de abril de 2009

A humanidade medida em pixels

A Humanidade, medida em Pixels


Gostaria de filosofar sobre um fato (ou seria um objeto) cada vez mais presente no nosso dia a dia: as populares câmeras digitais!
Na definição de câmera digital incluo todos os "gadgets" com a propriedade de captar e armazenar dados em foto ou vídeo, como os telefones celulares.

Vamos lá, para ilustrar, tomarei como exemplo, o show da cantora Alanis Morissete no espaço Pepsi on Stage, em Porto Alegre, evento em que ela encerraria uma maratona pelo Brasil, num total de doze shows. Bela apresentação (pelo que pude perceber), com toda a energia de uma artista no auge de sua carreira, mesclada com novos e velhos hits, para a alegria do público, que respondeu com bastante empolgação, do início ao fim.
O problema, foi que na maior parte do tempo, só consegui ver Alanis pela tela de 5,1 polegadas da câmera de uma telespectadora, posicionada à minha frente, durante o espetáculo.
Em raros momentos, foi possível espiar por entre os braços da multidão, que também portavam as tais câmeras digitais. Oras, se soubesse disso, preferia ter ido até a minha locadora favorita, emprestado um DVD, e curtido Alanis e sua banda em uma TV de 32 polegadas, no conforto e a tranqüilidade do lar (com o bônus adicional de pagar bem menos por um copo de cerveja).

Um fato, é que a crescente portabilidade e miniaturização dos aparelhos, contribuíram enormemente para que as pessoas estivessem prontas, a qualquer momento oportuno, registrar suas imagens em áudio e vídeo. Por sua vez, a facilidade na publicação e na exibição deste material, através de portais como o youtube, twitter, rapidshare, entre outros, também concorrem para este fenômeno.

Como futuro economista, me apressaria em responder que este comportamento é reflexo de um gene embutido no DNA do "homus economicus", em particular, o desejo por inovação tecnológica, mesmo que essa inovação não seja necessária, e permaneça ociosa a maior parte do tempo. Vale notar, que esse comportamento gera externalidades de consumo, pois se o meu vizinho tem uma digital HXZ-Pró, eu também quero ter, só que uma melhor ainda! Até ai tudo bem, sendo que uma solução simples seria transbordar para o nosso cotidiano a famosa "netiqueta", como uma "etiqueta da internet aplicada à vida real", a despeito da natureza humana. Inexistindo essa percepção, cada vez mais teremos que nos acostumar a assistir as apresentações divididas entre uma tela de uma câmera digital e o palco do artista.

Indo além, a meu ver, seria necessário uma neo-antropologia para entender o impacto deste fenômeno, bem como o pouco estudado fato da "digitalização" da sociedade moderna. Por exemplo, a maior exposição ao espaço público (no sentido de Habbermas), tem feito um inferno a vida dos políticos e das celebridades, transformando a vida humana em um gigantesco big brother. Em um país onde imagens em vídeo já derrubaram desde ministros a delegados de policia, o espaço para os erros é cada vez menor.

Ao mesmo tempo em que propicia furos jornalísticos, a portabilidade do vídeo tornou mais transparente as contradições e a sordidez do comportamento humano. Uma das questões que essa nova antropologia deverá responder é, até quando a soberba da sociedade irá resistir à lógica computacional? Pois, tudo que antes era escondido, e tratado apenas no âmbito privado, não resiste à frieza e a veracidade dos pixels, números, e bits.

Aquele que nunca (quase) perdeu uma namorada por causa do orkut, que atire a primeira pedra!