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terça-feira, 30 de março de 2010

O Mestre se foi

"E as palavras, eu que vivo delas, onde estão?"

Morreu Armando Nogueira.
A poesia do futebol nunca mais será a mesma.

Saudade Concisa.

Armando Nogueira

"A bola corre pelos meus campos de menino. Sonho dos meus recreios e das minhas gazetas. Me lembro de ti, colegial, esquiva, menos minha que dos outros.Vivias me apontando desencontros: tu, ariscas, ia pra um canto e eu, iludido, acabava no outro. Ainda bem que meu coração jamais se ofendeu com as nossas desavenças, bola querida.

Éramos, no fundo, naquelas peladas de quintal, dois aprendizes de ilusão, trocando senhas de vida no comecinho da vida.

Bola que corre pelos meus sonhos de menino:da nossa infância, guardo, sempre, a alegria sensual de ter te abraçado algumas vezes - poucas - encerrando, no meu peito de goleiro inglório, a paz da lua e a luz do sol.

Brincar contigo é descobrir a harmonia e o equilíbrio do universo.Brincar contigo é brincar com Deus, de cuja plenitude nasce a esfera, inspiração da bola.

Bola é magia, bola é movimento.É a vida nas mãos de uma criança. Louvado o homem que faz da bola parceira e cúmplice do seu próprio destino.

A bola da minha infância é uma saudade concisa que vem rolando comigo, de campo em campo, pelos caminhos do tempo. Um dia, antes do apito final, ela há de morrer, como um gol, no fundo do meu coração.

Minha alma deve ao futebol momentos de plenitude, sem os quais minha vida teria sido um mero empate, sem gols."


Descanse em paz e com toda a elegância merecida, Mestre!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O futebol em 2009

Acabou o Campeonato Brasileiro e com isso as quartas e os domingos serão um pouco piores sem futebol.
Se não fosse por alguns acontecimentos esporádicos poderia dizer que 2009 daqui pra frente só está cumprindo tabela.

Um balanço desse ano futebolístico:

O Campeonato Brasileiro desse ano mostrou que a fórmula de pontos corridos veio pra ficar, pra choradeira da Globo.

Para a felicidade quase que geral, os dois principais títulos nacionais do ano, ficaram com os times de maior torcida, acho justo.

O Inter teve a proeza de conseguir 2 vices campeonatos em um ano e já promete, pro ano que vem, o lançamento de mais um DVD.

O Corinthians teve um segundo semestre vergonhoso e para a tristeza de muitos tenho certeza que em 2010 não será assim.

O Palmeiras ficou fora da Libertadores, e eu achei justíssimo!

O Vasco subiu com folga e isso não deveria ser surpresa pra ninguém.

Agora pra mim o grande (tá bom, nem tão grande assim) destaque foi o Fluminense.
O clube que tinha 98% de chances de cair, desafiou a ciência e provou que futebol não é matemática.

Ainda bem!

Para a Santa Bola, 2009 definitivamente foi um bom ano.

Em 2010 tem mais!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O esporte bretão

Em homenagem ao Dia do Futebol comemorado ontem (19/06).

Sermão da planície (para não ser escutado)
Carlos Drummond de Andrade no Jornal do Brasil, em 18/06/1974.

Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranqüilidade.

Bem-aventurados os que, por entenderem de futebol, não se expõem ao risco de assistir às partidas, pois não voltam com decepção ou enfarte.

Bem-aventurados os que não têm a paixão clubista, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamo, ou nem isto.

Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio.

Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, projéteis, contusões, fraturas, e mesmo da glória precária de um dia.

Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura.

Bem-aventurados os fotógrafos que trocaram a documentação do esporte pela dos desfiles de modas, pois não precisam gastar tempo infindável para fotografar o relâmpago de um gol.

Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e as segundas na virilha, como os atletas e assistentes ocasionais de peladas.

Bem-aventurados os que não conseguiram comprar televisão a cores a tempo de acompanhar a Copa do Mundo, pois, assistindo pelo aparelho do vizinho, sofrem sem pagar 20 prestações pelo sofrimento.

Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo.

Bem-aventurados os que não moram em ruas de torcida institucionalizada, ou em suas imediações, pois só recolhem 50% do barulho preparatório ou comemoratório.

Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com o espetáculo direto ou televisionado da marcação cerrada, que paralisa os campeões, ou do lance imprevisível, que lhes destrói a invencibilidade.

Bem-aventurados os que nasceram, viveram e se foram antes de 1863, quando se codificaram as leis do futebol, pois escaparam dos tormentos da torcida, inclusive dos ataques cardíacos infligidos tanto pela derrota como pela vitória do time bem-amado.

Bem-aventurados os que, entre a bola e o botão, se contentaram com este, principalmente em camisa, pois se consolam mais facilmente de perder o botão da roupa do que o bicho da vitória.

Bem-aventurados os que não confundem a derrota do time da Lapônia pelo time da Terra do Fogo com a vitória nacional da Terra do Fogo sobre a Lapônia, pois a estes não visita o sentimento de guerra.

Bem-aventurados os que, depois de escutar este sermão, aplicarem todo o ardor infantil no peito maduro para desejar a vitória do selecionado brasileiro (ou de qualquer clube, diria eu - Puggina) nesta e em todas as futuras Copas do Mundo (ou em qualquer campeonato, também), como faz o velho sermoneiro desencantado, mas torcedor assim mesmo, pois para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração.