Tão positiva, que "inspirou" o Fabiano a escrever sobre o mesmo tema, porém sob uma ótica diferente.
No texto a seguir, Fabiano tece comentários sobre o que viu, e sobre o que outros deixaram de ver (e sentir?), durante o show do Radiohead, mês passado, no Rio de Janeiro.
Radiohead. Os caras, ali na frente de todos, tocando músicas que fazem parte de muitas vidas presentes, ou seja, uma oportunidade singular de catarse, de êxtase, de reviver diversas memórias num só momento.
Olho ao meu redor e vejo sorrisos, lágrimas e a euforia de quem se entrega ao que sente naquele instante. Mas também vejo muita gente se equilibrando, com braços para alto, esticados, tensos, com o olhar dividido entre o palco e a câmera que segura.
Vejo todas aquelas pessoas renunciando o momento, vivendo-o parcialmente, fragmentando sua atenção e perdendo o que aquele encontro tinha a proporcionar. Renunciavam a realidade em favor de possuírem uma cópia asséptica da realidade.
O vídeo gravado, no máximo, estimulará dois de seus sentidos, ao ser visto no futuro, enquanto sua presença, naquele momento, poderia ser estimulada por todos os sentidos. O som, a imagem, as sensações, nunca serão capturadas de forma a proporcionar o que um ser humano sente quando se entrega ao momento presente.
Ao capturar a realidade, tem-se a sensação de se ter o momento, de tê-lo fixado quadro a quadro e, de ter o poder de revivê-lo no futuro diversas vezes.
Atribuo essa disposição, de ter posse do momento, à ansiedade de tê-lo para o futuro, de poder vivenciá-lo de acordo com a sua vontade. Porém, um momento capturado é um momento armazenado em algo diferente de você. É como você nunca ter participado daquele momento. No vídeo, não há identificação do sujeito com a imagem, ou com o som presentes naquela data, pois não foi estabelecida nenhuma relação entre eles.
A percepção e a memória, de quem se atém a filmar o show ao invés de assisti-lo, fundiram-se fragmentadas, de forma estática e o material gravado não as reúne, não consegue restituir a dinâmica das sensações presentes. O todo só é vivido no momento e, por isso, os shows quando estamos presentes são, invariavelmente, melhores do que os assistidos em vídeo.
Voltando ao texto do Kidricki, e misturando nossas percepções, parece-me que a raiz do consumismo está na ansiedade das pessoas. De terem ao alcance de suas mãos algo que as faça superar seus momentos de angústia; superar a insegurança que o momento seguinte representa. Uma espécie de remédio do passado que tem o poder de curar as dores do futuro.
Quando o futuro chega, temos que aproveitá-lo e não desperdiçá-lo ao tentar criar um alívio para o que virá. Até, porque ele chega.
Vide o caso do show.
Ele representou o futuro para muita gente durante um bom tempo, afinal o Radiohead tem mais de 10 anos e ainda não tinha vindo ao Brasil. Essa é a prova de que o futuro pode chegar. O trágico é não saber se ele realmente chegará ou não. Esse é o principal motivo que faz com que muitos fabriquem suas pílulas antimonotonia ao renunciar, talvez, os melhores momentos de suas vidas para suprirem, se for o caso, a dor causada pela não realização de futuros ansiosamente aguardados."
* Fabiano Neves Hoelz é engenheiro, futuro filósofo diplomado e